quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

História e fantasia nos Andes

Luiz Antônio Aguiar
para o JORNAL DO BRASIL


EM SUA NOTA INTRODUTÓRIA, Ale­xandre Raposo, situa-se:. “...o ro­mance literário é um tipo de mentira sofisticada, perpetrada com o con­sentimento de quem o lê”. E a epí­grafe que apadrinha o Livro 1 do ro­mance amplia essa noção: “É preci­so saber ignorar”. A começar pela epígrafe; sim, saber ignorar é preci­so; é preciso possuir certa sabedoria para ignorar, para ser capaz de igno­rar bem, de modo fértil; para tomar a ignorância, ou aquilo que não se sabe, em conhecimento-outro da realidade: da história, no caso, um conhecimento que ultrapasse fatos e fontes: a ficção. Os simulacros, as verossimilhanças, a arte do fazer pa­recer possível, prestidigitação, con­hecimento. Inca, de Alexandre Ra­poso, exerce essa arte com exu­berância e emoção.
   Parte substancial do romance consiste no relato de Lloque, o amauta-sábio, conselheiro, fonte confiável para que se desfaçam enigmas antropológicos e arqueoló­gicos sobre os incas, já que Lloque foi figura de destaque da corte de Cuzco, do apogeu do Império até a execução de Atahualpa, que deflagra um declínio vertiginoso da civiliza­ção andina.
   No entanto, a existência predesti­nada de Lloque inicia-se na ilha da Páscoa — teria nascido, exatamente (embora não se registrassem datas à moda cristã, como de resto, talvez, de nenhuma outra maneira, entre os tamines) a 12 de outubro de 1464. Seu pai era um guerreiro tamine, descendente dos habitantes mais an­tigos da ilha, talvez os mesmos que erigiram as famosas estátuas. Sua pequena família constituía-se nos únicos sobreviventes da raça. Nessa época, Páscoa já haveria sofrido um surto migratório, vindo da Polinésia. Canibais, pouco se importan­do com a imponência das estátuas espalhadas pela ilha, os polinésios viam os tamines como caça, nada mais. Uru, pai de Lloque, guardião de fantástica coleção de tábuas onde se achavam registradas as lendas e a cosmologia tamine, sabe, pela escri­tura das tábuas, que há um continen­te distante a ser alcançado, atraves­sando o mar — empreitada insana, mas que alternativa tinham?
   As tábuas contavam que os tami­nes seriam descendentes do Povo do Sol, ao qual se reuniriam, algum dia, quando retomassem ao continente. Em contrapartida, entre os incas, corria uma profecia que anunciava, também para algum dia futuro, a chegada de descendentes do povo ancestral — esse evento marcaria o início da ascensão da civilização in­ca, o período das conquistas, das invasões, da prosperidade, da riqueza e da glória, da formação do Império.
   Lloque chega a Cuzco ainda be­bê de colo. E somos conduzidos através da narrativa pelo seu relato nostálgico, dolorido, aos 77 anos, já em plena dominação espanhola. Cientes de que o Império viverá também sua decadência, sua penúria, e que seremos inevitavelmente levados a acompanhá-la, nós, que fôramos seduzidos a admirar, a tor­cer pelos incas, a apreciar seu refi­namento exótico, e mesmo a tolerar as atrocidades que (também) come­tiam, somos contaminados pela mesma compaixão com que Llo­que, testemunhando o presente, desvela o passado. A nós, latinos modernos, foi deixada uma história do Império baseada nos brutamon­tes assaltantes de Pizarro, no que se depreende de ruínas etc... Lloque, que viu as fundações daquelas construções serem escavadas, como símbolo de grandeza emergente, não esconde, nem procura fazê-lo, seu lamento, a cada linha, pelo des­fecho que já conhece, que não po­derá evitar, mesmo em suas memó­rias, mesmo em seu relato. O efeito desse olhar desolado do narrador, mesmo nos momentos mais pujan­tes, é o que nos comove.
   Raposo usa a ironia em boa me­dida, e mesmo a gozação, toda vez que seu texto constrói uma verossi­milhança tão poderosa que corre o risco de ser desfigurada como ver­dade. E, com bom toque, vale-se de um tratamento de linguagem efi­ciente — sem firulas —, mais do que apropriado para o contexto em questão. O autor, estreante, reali­zou extensa pesquisa, visitou os lo­cais que lhe servem de ambienta­ção, exauriu amigos, compelidos a conviver com algum obcecado, ha­via anos, pelos incas. Como resul­tado, talvez cumpra a ameaça ou promessa — de sua nota introdutó­ria, despertando a imaginação dos leitores para a possibilidade de a realidade “ter sido ainda mais ina­creditável”. No entanto, Inca, na prática, renega tal princípio, mes­mo que, de início, tenha lhe servido de álibi. O que fica da leitura é a sensação de que realidade nenhuma pode demonstrar-se — ou compro­var-se — crível, sem o poder, a ma­gia e a comoção que lhe é conferi­da por aquele que a narra.
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Luiz Antônio Aguiar é escritor

Um comentário:

  1. Alexandre, também tenho a alegria de ser ex-aluno do Andrews. Por meio do perfil da Carmen Falcon (t 1981) li sua crônica adorável sobre o Bernardinho e ao passear um pouco por seu blog percebi que você também é o autor de um livro delicioso que li há mais ou menos 13 anos: "Inca - Uma Saga na América Pre-Colombiana". Parabéns pela temática (tão variada quanto interessante) e pelo estilo literário. Grande abraço, André Cantidiano.

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